Retrato de uma Amnésia

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

Não diga até logo quando quiser dizer adeus

Hoje eu tive minha primeira despedida ao estilo oriental. Sem lágrimas, abraços ou promessas de reencontro, aqui não se promete o que não iremos cumprir. Foram apertos de mãos tímidos, acenos, sorrisos e olhares indecifráveis encobertos por frases igualmente enigmáticas.
A vida foi boa. A vida é boa. Sempre haverão os sábados entre as segundas, os sorrisos entre os rostos ásperos, os passos lentos das crianças entre a correria dos adultos, as estrelas entre as nuvens.
Sempre houve pessoas que nos surpreendem. Sempre haverá. Para o bem e para o mal. Pessoas que entendem o peso do olhar melhor do que as palavras, que sorriem mesmo com as piores piadas, que não dizem o que devemos fazer, mostram.
Sempre esperamos um amanhã melhor. Sempre esperaremos. O amor das nossas vidas, o trabalho dos nossos sonhos, o lugar ideal. Amanhã, amanhã, ou depois.
Mas não eu.
Por isso não me arrependo de continuar me despedindo.
Adeus.

Domingo, Outubro 28, 2007

Retirado do livro "Conversas que terei com meus filhos em 2050" ainda não editado nem produzido.

Como criar um filho em 2050
- Pai, o que é amor?
Penso por alguns instantes. Não sei como responder, continuo minha leitura finjindo que não ouvi a pergunta, talvez ele esqueça.
Mas a pergunta vem novamente, e dessa vez não há como fugir, ele se apóia em meus ombros e me olha nos olhos.
- Senta aí no sofá que eu te explico.
Respiro fundo e o analiso de cima abaixo, encaro-o da mesma maneira que meu avô faziaquando contava uma história séria. Um olhar que diz, essa não é uma conversa para meninos,essa é uma conversa de homem para homem. Sem nem mesmo saber ele me devolve o mesmo olhar que eu retribuía a meu avô quando criança.
- Antes de tudo meu filho, onde foi que você ouviu isso? O que andam te ensinando na escola?!
- Ahh pai...eu vi na tv...
- Como assim?! Andam falando de amor na tv agora? Já não te falei pra parar de ver esses programas? Tem tanto programa com bunda, e reality show, e gente querendo se matar aí...e você fica vendo essas coisas que falam de amor?
- Mas eu vi só um pouquinho...
- Sei...Bom. Explicar o amor não é tarefa fácil. Podia ter me perguntado de onde surgem as crianças, ou que barulho éaquele de noite, ou por que o céu é azul...
Ele apóia as mãos sobre o joelho e abre um sorriso, ele sabe que depois de toda essa enrolação alguma história interessante virá e ele vai poder contar pra todo mundo que o pai dele explicou o que é amor.
- Escuta filho, amor não é uma coisa que se explica. Eu posso ficar o dia inteiro te falando sobre amor, sua mãe pode ficar o dia inteiro falando sobre amor, mas mesmo assim vai ser só um milésimo do que é amor.
Ele se espanta. Deve se perguntar como algo pode ser tão grande. A maior história que eu já contei durou 5 noites e pareceu uma eternidade.
- Espera um pouco pai.Dois minutos depois ele volta com o notebook no colo, abre um editor de texto e me pede para explicar devagar.
Eu rio, o que mais poderia fazer? Apesar de tudo crianças ainda são crianças.
- Não filho, o que eu vou dizer agora não é pra ser escrito, nem copiado, só ouvido e com sorte mal compreendido.
Ele desliga o computador sem entender o que eu quero dizer, sorrio mais uma vez e respiro fundo como se procurasseno ar palavras perdidas.
- Sabe aquela coleção de livros que o papai tem na estante?
- Uhum
- E aquelas fotos velhas guardadas na caixa de sapatos?
- Uhum
- E aqueles discos velhos que eu ouço nos domingos de manhã ?
- Uhum!
- Todos eles falam de amor, e ainda sim não possuem nenhuma semelhança
.Ele olha ao redor, pensa agora quanto tempo irá demorar para ler, ouvi, ver tudo aquilo. Talvez dez anos se começar agora.
- Mas então quer dizer que o amor está nas coisas?
Engulo seco, acho que estraguei tudo. O caminho é totalmente o oposto. Agora resta desfazer esse nó na cabeça do pequeno
.- Não, não. Olha esquece isso. Hum...deixa eu ver. Sabe quando você dorme na casa de um amiguinho e seu peito dói e você fica com vontade de ligar pra casa? ou quando a mamãe fica acordada a madrugada inteira do lado da sua cama quandovocê fica doente? Ou quando o papai joga video-game com você depois de um dia de trabalho? ou quando a gente sai de mãosdadas pelo parque rindo de qualquer besteira? ou ainda quando a gente como aquela beringela com alcaparra que a mamãe faze finge que é a coisa mais gostosa do mundo?
- Sei-
Tudo isso é amor.
- Então quer dizer que amor é uma dor, é ficar do lado quando alguém está doente, é brincar mesmo quando a gente está cansado, é dar risada de tudo, e é mentir ?
Quem está dando nós na cabeça de quem agora? Esse menino puxou a quem?
- Mais ou menos. Amar é uma dor que vem e não tem remédio, é rir sem motivo, é esquecer do cansaço, é querer ver o outrobem mesmo que para isso a gente fique mal, é fazer o que a gente não quer.
Ele pensa. E antes que faça outra pergunta a resposta vêm. Eu pego ele no colo, subo as escadas e aponto.Ela está dormindo. Um sorriso de criança. Agora eu sei a quem ele puxou.
-Vê? Aquilo é o amor? Nosso amor, meu e seu.
- Entendi. Por quê não disse isso antes? Seria bem mais fácil.
Agora eu sei que ele entendeu o que é o amor.Ele se solta de meus braços, corre até a mãe e lhe dá um beijo. Cochicha baixinho no ouvido dela.
- Eu te amo.

O amor são apenas "nós".

Terça-feira, Setembro 04, 2007

Marina

De tantos os olhares que passaram por mim, eu não percebi seu olhar
Meus olhos tão fechados para o mundo cansaram de deixar a luz entrar
Se não percebi foi porque seus óculos escuros bloquearam todo o lugar
Foi você quem passou por mim ou será que eu passei por você sem notar?

A vida é curta demais para grandes épicos de amor
Nosso livro escrito a quatro mãos, eu sei já decor
Abre a janela e ilumine o quarto já tão sem cor
Me leve com você, aqui ou ali, pra onde quer que for

Quarta-feira, Agosto 15, 2007

Os tempos mudaram

Não há mais abraços e beijos de despedida, apenas o barulho de um monitor sendo desligado em um quarto escuro. Não há mais olhos nos olhos, bocas trêmulas, mãos suadas, apenas bits sendo enviad,os por fibras óticas na velocidade da luz. Não há mais jogos de futebol, nem gritos de gol, nem torcida organizada, nem barulho de carro; apenas tiros, barulhos de teclado e movimento de mãos. Não há mais cadeira ao lado do muro para chamar pelo vizinho, para pular o muro, apenas um piscar incessante no canto da tela. Não há mais flores nem bilhetes com juras de amor eterno, nem espera pelo fim de semana; apenas beijos sem sabor, movimento rápido de linguas desconhecidas nas bocas. Não há mais andar de mãos dadas pela rua, nem conversas na calçada, nem banco de praças; apenas o vento gelado do ar-condicionado e o escuro do cinema. Não há mais o peso da cabeça sob os ombros, apenas mensagens de celular. Não há mais memória do primeiro beijo, apenas os planos para o próximo.
Não há mais saudade pois não há mais distância, não há lembrança do cheiro nas roupas pois não há mais abraços sinceros de quem não espera nada em troca, não há mais lágrima de tristeza pois não há mais motivos para felicidade passageira.
Não há mais tempo.
Não há mais o nosso tempo.
Mas tudo bem. Eu ainda vejo as horas passarem pela ampulheta do meu avô sob a mesa de jantar, pelo relógio de sol no quintal da minha professora do primário, pelo frio da madrugada e pelos pés gelados no chão do quarto.
Ainda vejo o tempo passar lento. Pois já não tenho pressa de crescer.

Domingo, Junho 17, 2007

você

era você que puxava a cadeira nos restaurantes
era você que abria a porta do carro nos dias de chuva
era você que batia o dedinho na quina da mesa para acender a luz da cozinha
era você que me ligava na hora do almoço para perguntar se já havia comido
era você que alugava filmes nos finais de semana chuvosos
era você que perguntava se eu estava bem quando meu olhar estava distante
era você que entrelaçava os dedos em meus cabelos
era você que me desejava boa noite
era você que dividia o peso do mundo comigo
era você que ficava em silêncio quando eu nao queria falar
era você que contava as gotas de chuva na janela
é de você que eu sinto falta

Sexta-feira, Junho 15, 2007

Potes de maionese de 1kg.
Caixas de sapato número 50.
Mochilas para viagem de 100 litros.
Caminhões para mudança.
Guarda-volumes de rodoviária.
Cofres de banco.
Já tentei guardar em milhares de lugares, mas por maior ou mais seguro que fosse nunca era o suficiente. Até o dia em que desisti de guardar porque descobri que amizade não se guarda porque não se perde, não se prende porque não se podetoca-la, não se carrega porque é ela quem carrega a gente. Amizade é ficar sem se ver por 3 ou 4 anos, mas perceber que algumas coisas são exatamente as mesmas, e o que mudou,estranhamente mudou de maneira parecida para ambos. Amizade antiga, dos tempos de colégio, de dividir lancheno recreio, de colocar bilhete na mochila das meninas, de jogar video-game no sábado a noite, de visitar quando um dos dois adoece e torcer para ficar doente também e poder matar aula juntos, de comprar o mesmo cd e ver quem cuida melhor dele, de formar banda mas nunca tocar uma música inteira, de chamar de frescura quando um dos dois sofre por um coração partido mas de jurar que quebraria a cara da menina se ela fosse um homem.
Minhas amizades ainda são jovens, mas nunca imaturas. Não chegaram na maioridade mas já moram sozinhas.Minhas amizades têm nomes próprios, pensamentos próprios e ás vezes ficam sem me dar noticia durante meses. Minhas amizades prometem mas nem sempre cumprem, juram que não vão sumir, mas somem. Mas mesmo assim são amizades. Não porque eu faço um esforço para mantê-las, mas sim porque mesmo com os pequenos erros e decepções eu não preciso de esforço para mantê-las. Minhas amizades são como os dedos das mãos,me ajudam a fazer a barba, a abrir a porta do meu primeiro emprego, a puxar o cobertornos dias de frio, a tocar uma melodia triste no violão.Hoje elas andam por aí. Sonhando, chorando, lutando. Exatamente como nos velhos tempos, outotalmente reformuladas para os novos . Mas não tem problema. Por mais que cresçam barba,barriga e rugas eu vou reconhecê-las. Pois elas não estão em retratos ou em filmes, estão aqui comigo, escrevendo este texto.

Quarta-feira, Maio 09, 2007

Sua insegurança é tão grande que dói em mim

Eu te olho, eu te toco.
Eu te beijo, eu te dou a mão, eu te dou meu colo.
Eu corro pra você, sorrio pra você, espero por você.
Mas eu não te enxergo.
Não te sinto.
Não consigo definir seu sabor.
Não posso entrelaçar meus dedos nos seus.
Não sinto o peso do seu corpo sob o meu.
Não te alcanço.
Seus olhos são apenas espelhos vazios onde eu vejo meu reflexo.
Mas não se preocupe.
Porque eu espero por você.